A curiosidade e o gato

Junho 30th, 2009
Google Buzz

O Filipe parecia um rapaz igual aos outros: nem alto nem baixo, nem gordo nem magro… o que o tornava diferente dos outros eram os olhos. Os olhos do Filipe eram muito curiosos e precisavam de ver tudo; para falar verdade, os ouvidos também queriam sempre saber tudo. Bom, o nariz queria cheirar tudo e as mãos, já perceberam, também queriam tocar em tudo.

E como estava sempre à procura de novidades, às vezes o Filipe metia-se em sarilhos. Como daquela vez que encontrou uma canoa abandonado no lago e resolveu dar um passeio nela; claro que assim que entrou na água, a canoa começou a meter água – estava abandonada porque tinha um furo pequenino e deixava entrar a água. O Filipe resolveu logo o problema: tirou da boca a pastilha e colou no furinho, para deixar de entrar água e poder voltar para terra (ajudou ele estar muito perto das margens do lago).

Ou como da outra vez que ele decidiu descer a corda do telhado (não perguntem o que ele estava a fazer em cima do telhado) para o chão colocando o cinto e agarrando com as mãos as pontas do cinto (claro que aterrou em cima do arbusto e não se magoou por pouco).

Na verdade, o Filipe estava sempre a meter-se em sarilhos. Parecia que os sarilhos tinham maneira de o encontrar. No dia da nossa história, ninguém podia adivinhar o que ia acontecer. Estava tudo como sempre.

O dia correu normal e quando o Filipe chegou a casa achou estranho não ver o irmão mais velho na sala, a jogar com os amigos. Foi à procura dele e quando chegou à porta do quarto do irmão ouviu vozes. Curioso como era, ficou logo de orelhas em pé para saber do que estavam a falar. Foi aproximando-se devagar, mais silencioso que um gato, até estar suficientemente perto para ouvir. O irmão estava numa conversa muito animada com os amigos:

- “Já viste, vai ser muito fixe†dizia ele.

- “A malta vai ficar toda a olhar para nós quando aparecermosâ€, respondia o amigo.

- “Vamos ser os únicos na rua assimâ€, dizia outros dos amigos.

- “E já está tudo pronto?†perguntou um dos amigos.

- “Sim, a caixa está nas prateleiras da garagem, prontinhaâ€.

- “Fixe, então vamos buscar o resto das coisas†responderam os amigos.

O Filipe escapuliu-se para o seu quarto e esperou que o irmão e os amigos saíssem de casa; assim que os viu afastar, foi a correr para a garagem. Quando entrou lá e viu a caixa em cima das prateleiras, não resistiu; tinha mesmo que espreitar o que estava lá dentro e o que tinha deixado o irmão com um ar tão conspirador. Mas a prateleira era muito alta e ele ainda era muito baixo. Mas nada podia impedir o Filipe.

“Bom†– pensou ele – “Se eu colocar esta caixa aqui, posso por os pés naquela prateleira e subir pela outra e já devo lá chegarâ€. Bem o pensou, assim o fez. Colocou o pé direito na caixa, o pé esquerdo na prateleira e foi subindo. Infelizmente, as prateleiras eram velhas e não aguentavam muito peso. A meio da subida, a prateleira começou a fazer barulhos estranhos (certamente a reclamar do que o Filipe estava a fazer) e de repente…partiu-se! O Filipe ainda tentou agarrar-se a alguma coisa e só conseguiu agarrar-se à tal caixa. Que tinha lá dentro um balde cheio de…tinta azul.

Um balde cheio de tinta azul! Imaginem como ele ficou… mãos azuis, pernas azuis, cara azul, cabelo azul… é que o irmão e os amigos tinham estado a juntar tinta azul para pintar as suas bicicletas (iam fazer um vistão quando aparecessem, todos com bicicletas azuis a parecerem novas).

O Filipe saiu dali a correr para casa para tomar banho (a banheira ficou toda azul). Quando o Filipe saiu do banho e olhou-se ao espelho apanhou um susto: o seu cabelo estava azul; voltou para o banho, colocou shampoo e voltou a esfregar muito bem a cabeça. Mas quando saiu outra vez e olhou para o espelho…continuava azul. Por mais banhos que tomasse, o azul não saía. E ficou de cabelo azul, até este crescer e poder cortá-lo (o que demorou alguns meses). Sempre que se olhava no espelho, lembrava-se do que tinha acontecido.

A verdade, é que o Filipe não deixou de ser curioso (é um bichinho bom que temos em nós e pode continuar durante toda a vida), mas passou a ter mais cuidado com o que fazia. Ninguém gostaria de andar na escola com o cabelo azul.

E o irmão? Claro que ele percebeu o que o Filipe tinha feito e como tinha desaparecido a tinta para as bicicletas, mas achou que andar de cabelo azul já era castigo suficiente.

Aos Pais

A curiosidade é essencial para o processo de descoberta e aprendizagem; é o que nos faz querer saber mais, inventar mais, mover mundos para fazer novas descobertas. Incentive a curiosidade da sua criança através de visitas a museus, jogos, mistérios, conversas, …

O chapéu da tia-avó Emília

Maio 26th, 2009
Google Buzz

A Emília estava aborrecida.

Na verdade, estava mais do que aborrecida, estava entediada, enfastiada, enfadada, … enfim todas as palavras do dicionário que queriam dizer que estava bastante chateada porque não tinha nada com que se entreter. A mãe e o pai estavam a trabalhar, os avós moravam longe, os primos eram mais velhos e já não se interessavam por brincadeiras e a melhor amiga estava doente.

A televisão era uma seca, os jogos estavam todos ultrapassados e as bonecas tinham sido colocadas de lado. Nada para fazer. Bem que a Emília tentava ocupar-se: sentava-se em cima da cama, deitava-se no sofá, ia à cozinha beber um copo de água, mas por mais que quisesse o tempo não passava.

Até que alguém tocou à campainha. Quando a Emília chegou à porta e espreitou pelo buraco não viu ninguém. Quer dizer, não estava lá ninguém, mas estava lá alguma coisa, porque quando abriu a porta estava uma embalagem no chão. Cheia de selos. Teria sido o carteiro que a teria lá deixado?

Emília trouxe a embalagem para dentro de casa e viu que a morada lá escrita era a sua. Mais interessante, era o seu nome que estava lá escrito. Embora muito curiosa, esperou que a mãe chegasse a casa para abrir o pacote (custou-lhe muito, os dedos tinham tanta comichão que só queriam abrir a embalagem para ver o que lá estava). Assim que a Emília ouviu o barulho da chave na porta, correu para a entrada com a embalagem na mão.

- Mãe, mãe, vê o que é isto! – Disse logo a Emília, mal dando tempo à mãe para pousar a mala; depois de um beijo e de um abraço, a mãe segurou no pacote e leu o que lá dizia.

- Foi a tua tia-avó Emília que te enviou esta embalagem. Abre para vermos o que está lá dentro.

E lá dentro estava… um chapéu. Grande. Com abas enormes. E uma flor azul. Que estranho! Afinal quem era tia-avó Emília e porquê um chapéu?

A mãe foi buscar o álbum das fotografias; lá estava a tia-avó (que era irmã da avó da Emília) muito bonita, nas fotografias. Aliás, a Emília chamava-se assim por causa desta tia-avó, de quem a mãe gostava muito e que, dizia-se, tinha sido muito aventureira. E até havia uma foto desta Emília mais velha com o tal chapéu na cabeça (e parecia que estava bem contente, com um grande sorriso).

A Emília mais nova pegou no chapéu e foi até ao seu quarto. Olhou para o chapéu grande, com abas enormes e uma flor azul. Revirou-o na sua mão, espreitou para dentro dele, cheirou a flor (que estranhamente, apesar de ser falsa, tinha um certo perfume) e colocou-o na cabeça.

Assim que o fez foi dar consigo a guiar um avião (daqueles pequeninos de dois lugares). Voava bem alto e a uma grande velocidade.

- E agora, o que faço? Não sei guiar aviões, até hoje só guiei a bicicleta!

Mas a verdade é que o avião ia muito bem; até parecia que a Emília já tinha feito isto muitas vezes. Ao fim de algum tempo, a Emília começou a descontrair-se; afinal não era assim tão difícil. Se calhar até podia ser piloto de aviões quando fosse grande. Assim que acabou de pensar no seu futuro, acendeu-se uma luz vermelha e ouviu-se um apito; então, um dos motores começou a tossir (parecia um pouco constipado). O avião estava a ficar sem combustível para voar, o que não era nada bom. A Emília tinha de aterrar depressa senão o avião corria um grande risco de cair. A sorte é que um pouco mais à frente havia um grande espaço para aterrar, sem nenhuma árvore.

Começando a descer, com as mãos muito firmes e o coração muito apertado, a Emília aterrou o avião sem ninguém ficar ferido (nem ela, nem o avião).

- Foi por pouco. E agora, sem avião como volto para casa?

Saltando do avião, começou a andar em direcção a um lago que tinha visto mais à frente, antes de aterrar. Ao chegar mais perto viu que existia lá um acampamento com duas tendas, uma fogueira e um carro. “Estou salva†pensou ela. Mas ao chegar mais perto ouviu um som de arrepiar, um grito que lhe colocou os cabelos em pé. Parou imediatamente. “Se calhar não é um bom lugar para pedir ajudaâ€. Seguido do grito, começou a ouvir um choro; curiosa, foi aproximando-se muito devagar para tentar compreender o que se passava. Assim que chegou perto da última árvore, viu que o choro vinha de um leão. Um enorme leão! Mesmo assustador.

Este leão estava fechado numa jaula. De repente, o leão começou a cheirar o ar e disse

- Quem está aí? Não te conheço. Mostra-te!

Um pouco assustada e sem conseguir desobedecer, a Emília saiu detrás da árvore.

- Quem és tu? – Perguntou o leão. Não te tinha visto antes.

A Emília apresentou-se e conversou com o leão, descobriu que este tinha sido capturado quando estava a tomar conta da selva, para ser vendido a homem com muito dinheiro que o queria meter numa jaula no jardim da casa; o problema do leão é que ninguém sabia que ele estava ali e não havia mais ninguém para tomar conta dos outros animais (afinal, era ele o rei da selva). Com muito cuidado e olhando em volta para ver se não estava lá mais ninguém, a Emília aproximou-se da jaula a abriu-a. O leão saltou imediatamente cá para fora e rugiu de agradecimento. Ao fazer isto, os caçadores que estavam a dormir na tenda ouviram e saíram para fora.

- Depressa, foge! – Disse a Emília.

- Sobe para cima de mim, agarra-te à minha juba e vamos embora. – Respondeu o leão.

Bom, a ideia não agradava muito à Emília, mas assim que viu os caçadores à procura das armas, correu imediatamente para cima do leão e partiram os dois o mais depressa possível.

Andaram um dia e uma noite até chegarem a casa do leão. Claro que a Emília foi muito bem recebida por todos os animais. Era uma heroína. Houve uma grande festa, com comida para todos. O rei tinha voltado para casa. Infelizmente, não era casa da Emília. E por mais que ficasse contente por estarem bem, estava também triste por não poder voltar para casa.

O leão, muito inteligente, reparou que a Emília tinha os olhos tristes e perguntou-lhe porquê. A Emília contou-lhe: gostava de estar ali, mas gostaria muito de voltar para casa, só que não podia porque o avião onde tinha vindo não podia voar.

- Como recompensa pela tua coragem ao ajudar-me a fugir dos caçadores, vou ajudar-te. No cimo daquela montanha existe uma gruta mágica que poderá resolver o teu problema. Só tens que saber o queres pedir e a gruta dá-te. Vou pedir ao elefante que te leve até lá.

Subindo pela tromba do elefante, a Emília sentou-se nas suas costas e foi até à montanha. Ao chegar lá desceu, agradeceu ao elefante pela viagem e foi procurar a gruta. Depois de muito andar, subir, descer e olhar, lá encontrou um buraco na montanha onde cabia apenas uma pessoa.

- Deve ser este o sítio. Vou entrar e pedir. Quero que o avião voe para voltar para casa.

Imediatamente surgiram duas asas aos seus pés.

- Não, não é isto que quero. Quero uma coisa para fazer o avião andar! – Duas rodas apareceram aos pés dela.

- Não, não estão a perceber. Bolas! – E várias bolas apareceram: umas grandes e azuis, outras pequenas e amarelas, outras ainda de futebol.

Não, por favor, eu só quero voltar para casa. – E duas portas surgiram em frente a ela. “Será que é isto?†pensou. E estendendo as mãos, abriu as portas. Assim que o fez saiu da dispensa da sua casa directamente para o corredor.

Que alívio!

A mãe andava à sua procura para ir tomar banho antes de jantar. Tirando o chapéu da cabeça, a Emília arrumou-o achando que o seu dia de hoje já tinha sido muito comprido. O melhor era experimentar novamente o chapéu noutro dia. Quem sabe até onde poderia ir dessa vez?

Aos pais

A criatividade e a fantasia são essenciais para as crianças crescerem; ajuda-as a pensar, a inventar, a experimentar e a descobrir soluções diferentes das que estamos habituados. As maiores invenções da humanidade podem estar na cabeça da sua criança. Estimule a sua criatividade através de improvisos de teatros e histórias, de jogos e brincadeiras.

Um mano mais novo

Março 26th, 2009
Google Buzz

O David tinha um irmão mais novo que o seguia para todo o lado. 

No início era muito engraçado, ver o mano sempre atrás dele quando ia da sala para o quarto, do quarto para a cozinha, … mas ao fim de algum tempo, o David estava a ficar cansado de ter sempre o seu mano atrás de si. Quando o David estava a estudar, o mano trazia os carros e fazia barulho; quando estava a lavar os dentes, o mano ia buscar a sua escova de dentes e colocava-se ao seu lado a lavar os dentes; até quando estava a brincar com os seus amigos, o mano andava atrás dele.

O David nunca pensou que o seu pedido tivesse este resultado; é que ele tinha pedido muito aos pais para ter um mano, mas… não era isto que ele tinha pensado. Na verdade, ele queria um irmão mais velho que jogasse à bola com ele (o mano não conseguia dar grandes pontapés na bola), que lhe fizesse companhia na escola (o mano ainda estava a aprender as cores), que dividisse os castigos com ele (os pais diziam que o mano era muito pequeno e não sabia o que fazia).

Não, não era nada disto que ele tinha pensado! E agora não podia fazer nada. Não havia nenhuma loja onde se conseguisse trocar um mano mais novo por outro, mais velho, a estrear.

Então um dia, enquanto remexia no sótão (escondido lá, para o mano não o encontrar), encontrou uma arca cheia de velharias; lá dentro estava uma caixa com uma fechadura. O David procurou a chave por todo o lado até a descobrir. Quando abriu a caixa, depois de espirrar por causa do pó, saiu de lá de dentro um homenzinho muito pequeno (do tamanho de uma mão aberta), vestido de uma forma engraçada e, imaginem só, azul! Mesmo azul, da cabeça aos pés (e não falo da roupa). O homenzinho agradeceu ao David e perguntou-lhe se o podia ajudar em troca do favor que o David lhe tinha acabado de fazer. O David disse logo que sim, claro que podia. E se ele pedisse ao homenzinho para que o irmão deixasse de andar atrás dele o dia todo? O homenzinho respondeu-lhe que sim, que amanhã o irmão já não andaria o dia inteiro a segui-lo. O David mal podia esperar pelo próximo dia.

Quando acordou no dia seguinte viu que o irmão não estava na cama dele. Espreitou pela casa todo e nada. Uau! Não tinha mais o irmão atrás dele, nem a derrubar as suas construções, nem a atrapalhar os seus jogos.

O dia foi passando para o David, mas havia qualquer coisa estranha: ele não conseguia perceber porquê, mas não conseguia entreter-se com nada: o computador não tinha piada, fartava-se rapidamente dos carros e nem à bola lhe apetecia jogar.

Bem, a verdade é que sentia algumas saudades do mano, porque às vezes ele até tinha graça; estava sempre pronto para brincar ao que o David queria, ria sempre das suas palhaçadas e até era engraçado ensiná-lo a jogar (mesmo porque o David ganhava sempre os jogos, a não ser que quisesse mesmo perder).

Ao fim do dia, o David já estava arrependido; se calhar era melhor ter um irmão pequeno atrás dele do que nenhum; e depois ele haveria de crescer e deixar de ser trapalhão e começar a ir para a escola (e a ter trabalhos de casa). Voltou ao sótão para ter uma nova conversa com o homenzinho azul. Mas a caixa estava vazia e não estava lá mais ninguém. E agora? Se não encontrasse o homenzinho nunca mais veria o irmão. E os pais? Iam ficar tristes. Como é que ele ia resolver isto? 

Pensou, pensou e tornou a pensar. Mas nada! Por mais voltas que desse não conseguia encontrar uma solução. Estava tão concentrado que chegou rapidamente a hora do jantar e a mãe foi chamá-lo para a mesa. Sem saber como ia dizer aos pais que o mano nunca mais voltava, muito triste, lá desceu para jantar.

Quando estava a chegar à porta, sentiu algo a agarrá-lo; qual não era o seu espanto quando viu o mano de volta dele. Então o que tinha acontecido? Como é que o mano voltou a aparecer? Que grande confusão! 

Afinal o mano tinha ido de manhã muito cedo levar as vacinas e depois tinha ido passear com o avô. Só tinham voltado à tarde, mas o David estava no sótão tão concentrado que não os tinha ouvido chegar.

O David ficou tão contente e tão aliviado! Nunca mais voltava a pedir que o mano fosse embora (por mais chato que o mano pudesse ser).

 

Aos pais:

É habitual existirem atritos entre irmãos, em particular quando os interesses de cada idade não são os mesmos. Normalmente não é preocupante e mais tarde ou mais cedo eles acabam por ultrapassar as divergências. Os pais podem ajudar ao bom entendimento descobrindo actividades que todos gostem de fazer em família, com oportunidade para todos participarem (jogos de equipa, jogos de tabuleiro, passeios a museus ou bibliotecas). Aproveitem o tempo para se divertirem (e tirem fotos para mostrar).

Um dia mau

Fevereiro 18th, 2009
Google Buzz

Quando chegou a casa, a Carlota estava muito desanimada. O dia tinha corrido muito mal. A professora ralhou com ela porque tinha feito erros no ditado,a Ana (a melhor amiga) também discutiu com a Carlota , porque queriam brincar a coisas diferentes. Em casa, a mãe não lhe perguntou como tinha corrido o dia e o pai ainda não tinha chegado a casa.

Como é possível um só dia correr tão mal? Deitada em cima da cama, a Carlota pensava; pensou tanto que adormeceu e sonhou. Sonhou que era uma princesa linda, com um vestido cor-de-rosa fantástico, mas que vivia sozinha no castelo.

Que coisa estranha! 

Não havia ninguém no castelo. Saindo do castelo, a Carlota percorreu o reino todo, à procura de alguém. Nada. Finalmente ouviu um barulho perto de uma árvore. Quando foi ver o que era, descobriu uma raposa deitada, a descansar.  

“Viva†disse a raposa. Nesta altura, a Carlota nem achou estranho que uma raposa falasse. Ela queria era que alguém falasse com ela. “Viva†respondeu a Carlota. “Onde está toda a gente?†“Por aí†respondeu a raposa.

Olhando à sua volta, a Carlota não viu ninguém e foi mesmo isso que respondeu. “Não sabes o que aconteceu? Por onde tens andado?â€. “Por aí†respondeu a Carlota. “Então não sabes que uma bruxa fez um bruxedo neste reino e todas as pessoas estão invisíveis? Estão todos por aí, mas ninguém consegue ver os outrosâ€. 

“E agora?â€, pensou a Carlota “Como vou resolver este problema?â€. “O melhor é procurares a bruxa†disse a raposa, como se tivesse lido o pensamento da Carlota. A raposa resolveu ajudar a Carlota e lá partiram as duas. Ao fim de muito andar, lá encontraram uma casa, meio abandonada, muito suja e mal arranjada. Era ali que morava a bruxa. 

A Carlota resolveu entrar e a raposa disse-lhe que esperava por ela à porta da casa. Se a bruxa chegasse, a raposa faria barulho para avisar a Carlota. A Carlota entrou na casa e fartou-se de procurar. Mas, procurar o quê? Não sabia o que procurar. Voltou a sair. “Mas o que é que eu tenho que procurar na casa, para trazer as pessoas todas de volta?â€. “Bemâ€, respondeu a raposa, “tal como as fadas têm uma varinha mágica, as bruxas também têm uma; mas a das bruxas é um pau muito torto e muito escuro. Tens de encontra-la e parti-la. Assim a bruxa perde toda a magia e as pessoas deixam de ser invisíveisâ€

A Carlota voltou a entrar na casa e procurou, procurou, procurou, mas não encontrou nenhuma varinha. Entretanto, quando espreitava debaixo da cama, ouviu a raposa a fazer barulho. Isso queria dizer que a bruxa estava a chegar. Muito rapidamente, a Carlota escondeu-se debaixo da cama. A bruxa entrou em casa e foi directa ao quarto. Sentou-se em cima da cama, descalçou-se e colocou a sua varinha em cima da mesa da cabeceira. Depois disto, deitou-se na cama e adormeceu. Ao fim de 10 minutos, para ter a certeza que a bruxa estva realmente a dormir (e a ressonar bem alto), a Carlota saiu debaixo da cama e levantou-se. Viu logo a varinha, agarrou-a e saiu a correr de casa.

“Já a tenho†disse à raposa. “Óptimo, agora já sabes o que tens de fazerâ€. Saindo muito rapidamente dali, não fosse a bruxa acordar e dar pela falta da varinha, voltaram para o castelo. Já em segurança em sua casa, a Carlota partiu a vara. De imediato surgiram os seus pais, os seus amigos, até a sua professora. A Carlota ficou tão contente que recompensou a raposa: a partir daquele dia ficava a viver no palácio. 

E com isto, a Carlota acordou. Estava tão bem disposta que resolveu esquecer que o seu dia não tinha sido bom; se calhar também tinha sido uma bruxa que lhe tinha feito um feitiço que tinha sido quebrado pelo seu sonho. 


Aos Pais

Nos contos de fadas, há sempre uma moral, uma personagem boa e outra má. Claro que isto nem sempre acontece na vida real, mas os contos servem para sonhar. E também para ajudar as crianças a distinguirem os bons dos maus comportamentos, as recompensas dos castigos, os conceitos de solidariedade, de amizade, … 

Ajuda a ordenar o seu mundo em preto e branco para mais tarde aprenderem que entre o preto e o branco também existe o cinzento.

Depois da hora

Janeiro 26th, 2009
Google Buzz

- Esperem por mim! Esperem… – Gritava o Bruno. O Bruno estava sempre atrasado; tinha sido assim desde o início e já todos sabiam. Na verdade já todos estavam habituados. 

O Bruno chegava depois da hora de entrada na escola, chegava atrasado ao almoço, chegava tarde às brincadeiras. Os amigos ainda tentavam ajudar o Bruno: combinavam às cinco da tarde e diziam-lhe às quatro, combinavam às cinco da tarde e chegavam às seis, mas nada dava resultado. Tinham sempre que esperar pelo Bruno.

É claro que o Bruno também perdia muito por chegar atrasado. No futebol, já todos tinham sido escolhidos e ele ficava com o último lugar (aquele que ninguém queria), nas festas já todos tinham comido os seus doces preferidos (e ele nem os chegava a provar) …

Ora o Bruno também não estava contente com a situação; afinal, ele ficava sempre com aquilo que os outros não queriam. 

Ninguém estava contente com a situação. Mas o Bruno também não a sabia resolver.

Um dia, na biblioteca, o Bruno viu um livro que tinha na capa um desenho de uma menina, um grande relógio e um coelho a correr. Ficou curioso e quando abriu o livro viu que o coelho se queixava muito de chegar sempre atrasado e corria muito para chegar a horas, mas por mais que corresse, nunca chegava à hora combinada.

Quer dizer, a história não era sobre o coelho, era sobre a menina e a grande aventura que viveu quando conheceu o coelho; mas o Bruno levou o livro para casa e ficou a ler a tarde toda. Estava tão distraído que nem ouviu a mãe a chamá-lo para jantar. E quando foi para a mesa, levou o livro com ele.

Os pais, curiosos para saberem o que estava a distrair o Bruno de tal modo que ele não queria deixar o livro pousado para poder comer, perguntaram-lhe o que se passava. E o Bruno contou; estava triste por ser sempre o último a chegar. 

“Bem, então vamos resolver issoâ€, responderam os pais. Compraram-lhe um relógio que tinha um alarme e tocava sempre que fossem horas importantes: horas de ir para a escola, horas de ir brincar, horas de ir almoçar, … O relógio tocava e o Bruno já sabia o que tinha que fazer. 

A partir desse dia, o Bruno era sempre o primeiro a chegar.

Bem, por vezes era o segundo ou o terceiro, mas já não era o último e ninguém tinha de esperar por ele.

 

 

Aos pais

É natural que as crianças tenham algumas dificuldades em interiorizar as horas, em particular quando não têm as rotinas adquiridas (as rotinas são aquelas tarefas que fazemos quase diariamente e sensivelmente à mesma hora, como por exemplo, tomar banho antes de jantar, comer quase sempre à mesma hora, …).  

As rotinas ensinam à criança a noção da passagem do tempo e o que é esperado acontecer em cada altura do dia. Transmitem segurança (tal como as regras, mas estas deixamos para outra história).

Um país lá longe…

Janeiro 13th, 2009
Google Buzz

Uma noite, antes de deitar-se, a Ana começou a pensar: e se em vez de arrumar a mochila com os livros e cadernos, ela arruma-se a mochila com coisas diferentes? Colocou lá dentro a sua saia preferida, os ganchos azuis do cabelo, a boneca e um chocolate (porque podia ter fome no caminho). Depois saiu de casa e foi viajar. Num instante chegou ao país mais longe da sua casa que era, segundo tinha ouvido, o melhor do mundo.

Quando lá chegou ninguém perguntou à Ana se tinha feito os trabalhos de casa nem se tinha comido tudo ao jantar e nem se tinha arrumado o quarto (como às vezes os pais lhe perguntavam lá em casa). Ninguém lhe perguntou nada porque não havia ninguém lá: era só a Ana. Aí aproveitou para ver tudo à vontade, subiu às árvores, tomou banho no rio e dormiu quando estava cansada. E, melhor de tudo, podia fazer isto todos os dias!

Ao fim de algum tempo, a Ana começou a ficar cansada. E não tinha ninguém para brincar porque não estava lá ninguém. E não podia falar com ninguém porque estava sozinha (quer dizer, ela falava com as arvores, mas elas não lhe respondiam). E não estava lá ninguém para a abraçar, nem para ajeitar a roupa da cama, ninguém para perguntar se o dia tinha corrido bem e a Ana tinha sempre tanta coisa para contar. Não sentia o cheiro do perfume da mãe, nem ouvia a voz do pai, não sentia o abraço deles, não fazia festas no seu cão e nem comia o bolo delicioso que a avó costuma fazer. Nada disto.

Então, a Ana pensou melhor, arrumou todas as suas coisas preferidas na sua mochila e voltou para casa. Ao chegar, abraçou os pais, foi directo ao quarto, colocou os livros e os cadernos na mochila, vestiu o pijama, lavou os dentes e deitou-se na sua cama. Talvez seja melhor visitar em sonhos o país longe e continuar aqui por casa.

Aos pais

As crianças fazem por vezes ameaças de que vão fugir de casa, em especial depois de ouvirem ralhar e quando percebem que esta ameaça provoca um efeito curioso nos pais (uns olhares preocupados, uma agitação…).

Normalmente, estas ameaças são uma tentativa de fugir aos castigos (ou pelo menos de abrandá-los).

Os pais devem manter-se firmes no castigo dado e conversar sobre o “fugir de casa†com as crianças, numa linguagem adequada à idade delas; no fundo desmistificar o efeito da ameaça que elas fazem, não a ignorando, mas «desmontando-a».